Pautando as discussões das últimas reuniões pedagógicas do Macunaíma, esta pergunta se apresenta – ou deveria se apresentar – a todos que pretendem desenvolver um trabalho em teatro. Mais importante ainda ela se faz quando se trata não só de um processo de criação, mas também formador em que se refutem os estrelismos e se objetive alcançar uma equidade entre os pares.  

Não é de hoje que, no Brasil e no exterior, experiências e práticas diversas procuram ultrapassar os limites do individualismo e investigar novas formas de se produzir em arte, formas mais coletivas. Entre nós, a década 1960 foi especialmente profícua neste sentido, quando alguns grupos buscaram por processos mais participativos e consciente para os seus integrantes. Nestes casos, conhecidos como criação coletiva, havia também um intenso rodízio de funções, para que todos pudessem experimentar os papéis criativos envolvidos em um processo cênico. 

Já na década de 1970, uma nova forma de trabalho, visando o mesmo propósito coletivo, começou a ser experimentada nos grupos que se contrapunham ao caráter empresarial de certas companhias e faziam frente ao mercado de artes. Esta forma de trabalho, que ganhou reverberação a partir das experiências do Teatro da Vertigem, de São Paulo, dirigido por Antonio Araújo, foi cunhada como processo colaborativo e analisada por Luis Alberto de Abreu no artigo Processo Colaborativo – Relato e Reflexão Sobre uma Experiência de Criação”, publicado na edição de março de 2003 dos Cadernos da ELT. 

O processo colaborativo

Ao se destacar algumas das características desta forma de trabalho apontadas por Abreu, verifica-se a necessidade de eliminação de um excesso de subjetivismo em prol de uma construção em conjunto. Ou, nas palavras do autor: “Num processo de criação partilhada não há muito espaço para ‘minha cena’, ‘meu texto’, ‘minha idéia’. Tudo é jogado numa arena comum e examinado, confrontado e debatido até o estabelecimento de um ‘acordo’ entre os criadores.” 

Manter vivo, ao longo todo o processo, o fator comunicação, o que implica considerar a relação da obra com o espectador, pode auxiliar nesta atitude e ser usado como critério para as análises do material levantando. Pois há também a questão da interferência na criação alheia durante o processo coletivo de pesquisa, que não pode ser orientada por gostos pessoais e deve procurar certa objetividade. Assim, conforme Abreu: “A cena, como unidade concreta do espetáculo, ganha importância fundamental no processo colaborativo. Ela é o fiel da balança” 

Contudo, o problema das definições continua a existir, na medida em que muitos direcionamentos criativos podem ser suscitados neste território. E, ao mesmo tempo em que todos participam intensa e criativamente das etapas do processo, há a necessidade de se preservar as funções de cada artista. Como Abreu expressa: “De um lado existe total liberdade de criação e interferência, mas de outro é vedado a um criador assumir as funções do outro.”

A abordagem aqui deste tema, muito discutido nas reuniões semanais de professores do Macunaíma, procura apontar possíveis caminhos para as pesquisas artístico-pedagógicas em teatro. Refletir sobre um processo coletivizado inclui também pensar no papel do diretor-pedagogo, que, se não pode e não deve assumir aquela figura antiga e tacanha, hierarquicamente superiora a seus alunos, também não pode abrir mão de suas responsabilidades formativas.  

Por isso, o processo colaborativo nos fornece algumas pistas sobre a atitude que pode assumir um professor de teatro. Este, que deve estimular a participação criativa dos alunos em todas as frentes, exerce ao mesmo tempo uma função organizativa ou da “amarração final” do espetáculo, como se refere Abreu, evitando assim conflitos entre os estudantes e os libertando para a criação atoral. 

Se o diretor-pedagogo não sabe de antemão aonde todos irão chegar – posto que isto também será construído coletivamente –, ele pode organizar o processo prevendo alguns pontos de parada. Deste modo, ele viabilizará a continuidade do trabalho a partir de reflexões sobre o que já fora investigado, reorganizando a prática e a conectando à teoria com o intuito de que a experiência se transforme em aprendizado. 

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